Imprensa

2.10.19

De Caronte a Lúcifer


De Caronte a Lúcifer, a fantástica galeria de personagens que compõe a equipe infernal.
Da Caronte a Lucifero: la fantastica galleria di ‘personaggi’ che compongono lo ‘staff’ infernale.

Seja sua origem derivada da mitologia clássica, seja da tradição bíblica, em todos Dante transpus a força original de seu poder imagético, tornando-os arquétipos inesquecíveis da condição inumana e bestial que caracteriza o universo infernal.
Sia che la loro origine risalga alla mitologa classica, sia che derivi dalla tradizione biblica, in tutti Dante ha trasfuso la forza originale della propria potenza immaginifica, rendendoli indimenticabili archetipi della condizione bestialmente disumana, che caratterizza l’universo infernale.

Cada vez estes personagens aparecem nas passagens mais críticas e significativas da viagem infernal, com funções específicas e características distintas. Caronte, Minos, Cérbero, Pluto, e Flégias conduzem, julgam, ladram, ameaçam e dominam a região anterior a cidade de Dite. Nos muros da cidade, milhares de demónios formam uma barreira pavorosa, aparentemente insormontavel.
Di volta in volta questi personaggi appaiono, nei passaggi più critici e significativi del viaggio infernale, con specifiche funzioni e differenti caratterizzazioni. Caronte, Minosse, Cerbero, Pluto, Flegias traghettano, giudicano, latrano, minacciano, infuriano al di qua della città di Dite. Sugli spalti e le mura di quest’ultima, migliaia di demoni formano una terrificante barriera, apparentemente insuperabile.

Descendo mais encontramos guardiões brutais como Minotauro e criaturas híbridas e impiedosas como os centauros, prontos a acertar com suas flechas qualquer um que ouse transgredir as 'regras' locais. Scendendo oltre, troviamo guardiani brutali come il Minotauro e spietate creature ibride, i Centauri, pronti a trafiggere con le loro saette chiunque osi trasgredire le ‘regole’ locali.

A parte mais profunda do Inferno é controlada por Gerião, quimera monstruosa do rosto cativante de velho sábio que voa por cima do abismo das 'malebolge', o reino do trote e da fraude. Aqui, turbas de demónios açougueiros frustam, arpoam, escamam, laceram e cortam as carnes dos danados. ali punidos pela eternidade.
La parte più profonda dell’inferno è controllata da Gerione, mostruosa chimera dal volto rassicurante ed accattivante di vecchio saggio, che volteggia sopra l’abisso delle malebolge, il regno dell’inganno e della frode. In queste, schiere di diavoli aguzzini prendono a scudisciate, arpionano, scuoiano, lacerano, fendono le carni dei dannati colà eternamente puniti.

E, finalmente, o pior do pior: o fundo de toda iniquidade e falta de moral, ocupado por Lúcifer, que devora eternamente os traidores com as três goelas de suas três faces, quase uma ante-trinidade no polo oposto, físico e espiritual, daquele divino.
E finalmente, il peggio del peggio, il fondo ultimo di ogni iniquità è bassezza morale, è occupato da Lucifero, che sbrana in eterno i traditori con le tre fauci dei suoi tre volti, quasi un’anti-trinità al polo opposto, fisico e spirituale, di quella divina.

Caronte

Caron dimonio, con occhi di bragia …
Caronte demónio, com olhos de brasa...


Caronte, primeiro entre todos os personagens infernais, é o barqueiro entre as duas margens do rio Aqueronte, além do qual começa o 'verdadeiro' inferno, e é o único com aparência decididamente humana.
Caronte, primo fra tutti questi personaggi, è il traghettatore delle anime dannate tra le due rive del fiume Acheronte, oltre il quale comincia il ‘vero’ inferno, ed è l’unico con sembianze decisamente umane.

A descrição de Caronte corresponde amplamente a de Virgílio, no sexto livro da Eneida. Velho, com cabelos e barba amarrotada completamente brancos, rodeia os olhos vermelhos como brasa de forma ameaçadora. Dante, porém, vai além do modelo e caracteriza a personalidade de Caronte de maneira mais profunda, seja nos gestos e palavras dirigidas aos danados em geral, seja com Dante em particular.
La descrizione fisica di Caronte corrisponde largamente con quella fattane da Virgilio, nel sesto libro dell’Eneide. Vecchio, con capelli e barba incolta completamente bianchi, fa minacciosamente roteare gli occhi rosseggianti come brace. Dante però procede oltre il modello virgiliano, caratterizzando più a fondo la personalità di Caronte, sia nei gesti che nelle parole rivolte ai dannati in generale, ed a Dante specificamente.

As almas que aguardam a travessia são intimadas a subir nos lugares vazios com rápidos acenos da cabeça, até que o barco esteja completamente cheio. Quem titubeia é batido com o remo... antes da travessia, porém, todos são ameaçados por suas palavras: ai de vós, almas pecadoras, não guardem a esperança de ver o céu novamente!
Le anime in attesa di passare il fiume, con rapidi cenni del capo vengono fatte da lui salire nei posti liberi della sua barca, fino a riempirla completamente. Chi indugia viene percosso dal suo remo … Prima di traghettarli, però, tutti sono minacciati dalle sue parole: guai a voi, anime peccatrici, non sperate di poter mai rivedere il cielo!

A situação nova que Caronte enfrenta é a de encontrar um ser vivo e ainda por cima não destinado ao inferno!
La situazione nuova, che Caronte si trova ad affrontare, è quella di trovarsi di fronte ad un essere ancora vivo, e per di più non destinato all’inferno!


“E tu che se’ costì, anima viva,
partiti da cotesti che son morti”. (Inf., III, 88-89)


E tu que és alma viva na viagem,
aparta-te dos outros: são a morte.
(Jorge Wanderley)

Deve intervir Virgílio para acalma-lo, com a formula, repetida também mais adiante, que deve derrubar qualquer tentativa de oposição à viagem do seu discípulo:
Deve intervenire Virgilio a tranquillizzarlo, con la formula, più volte ripresa anche in seguito, che fa desistere ogni tentativo di osteggiare il viaggio del suo discepolo:

“Caron, non ti crucciare:
Vuolsi così colà dove si puote

ciò che si vuole, e più non dimandare”.


Quinci fuor quete le lanose gote
al nocchier de la livida palude,

che ‘ntorno a li occhi avea di fiamme rote.” (Inf., III, 95-99)


Caronte, acalma em ti
teu tom, que assim se quer onde o desejo
é já poder – e a coisa acaba aí.

Serenas faces e barba logo vejo
no barqueiro do lívido palude
de chama aos olhos em rubro lampejo.
(Jorge Wanderley)

A recusa maior

“Vidi e conobbi l’ombra di colui
che fece per viltade il gran rifiuto”

(Divina Commedia, Inferno, Canto III, versi 59-60).

'reconheci também sombra daquele
que a recusa maior tinha cumprido.'
(tradução de Jorge Wanderley)

Após o encontro com Virgílio, descrito no primeiro canto do Inferno, este não-nomeado é o segundo de uma longa série de personagens que Dante encontra na viagem de redenção nos três reinos do além.

Dopo l’incontro con Virgilio, descritto nel primo canto dell’Inferno, questo innominato è il secondo di una lunghissima serie di personaggi che Dante incontrerà nel viaggio di redenzione attraverso i tre regni ultraterreni.

Uma multidão desmedida de almas nuas, picadas por mosquitos e marimbondos, com o rosto marcado por lagrimas e sangue, alimento de vermes nojentos aos seus pés, constitui a turba dos negligentes que viveram 'sem erro ou louvor' recusados tanto por Deus quanto por seus inimigos.

Una moltitudine sconfinata di anime ignude, punzecchiate da mosconi e vespe, con il volto rigato da lacrime e sangue, pasto di vermi ributtanti ai loro piedi, costituisce la schiera dei vili, ‘che visser sanza infamia e sanza lodo’, ‘a Dio spiacenti e a’ nemici suoi’.

Entre estes, que não merecem ser lembrados no mundo, Dante reconhece um personagem que, na época, devia ser muito conhecido: àquele que por falta de coragem 'a recusa maior tinha cumprido'.

Fra costoro, che non sono meritevoli di nessuna fama nel mondo, Dante vede ed immediatamente riconosce un personaggio che, all’epoca, doveva essere notissimo: ‘colui che fece per viltade il gran rifiuto’ …

Nem o nomeia, mas quase todos reconheceram nele Pietro da Morrone, humilde eremita que tornou-se Papa em 1294 com o nome de Celestino V. A recusa maior, atribuída por Dante a falta de coragem, ocorreu apenas cinco meses após a coroação, com uma abdicação oficial. Era a primeira vez que o fato ocorria na história milenar da Igreja e o acontecimento gerou, naquela época, enorme repercussão e avaliações discordantes.

Non lo nomina nemmeno, ma quasi tutti hanno riconosciuto in lui Pietro da Morrone, l’umilissimo eremita divenuto Papa nel 1294 col nome di Celestino V. Il gran rifiuto, attribuito da Dante a viltà, ebbe luogo solo cinque mesi dopo l’incoronazione, con un atto d’abdicazione ufficiale. Era la prima volta che ciò accadeva nella millenaria storia del Papato, ed il fatto suscitò, all’epoca, enorme scalpore e discordanti valutazioni.

A história merece ser contada. O futuro Papa tinha nascido entre 1209 e 1215 em Iserna, no Molise. Conduziu uma vida de pobreza e dedicação as pobres, como eremita, tornando-se muito popular entre os contemporâneos. Com a morte de Nicolau IV, em 1292, a sede do Papado ficou livre por dois anos, pela incapacidade dos cardeais de chegar a um acordo, sendo muito fortes os contrastes entre as opostas facções em luta pelo poder. O pobre eremita foi, inesperadamente, eleito Papa em 1292, após ter escrito uma carta aos cardeais, em conclave na cidade de Perugia, profetizando acontecimentos trágicos se a Igreja não tivesse logo nomeado o novo Pontífice. Considerado alheio aos jogos do poder, facilmente manipulável e bastante velho para não ocupar por muito tempo o encargo, Pietro da Morrone recebeu a nomeação inesperadamente, em seu retiro e, apesar de receoso, acabou por aceitar. O poderoso cardeal Benedetto Caetani foi seu conselheiro e, com toda probabilidade, convenceu-o a abdicar com a promessa de deixa-lo voltar a seu retiro. Um rápido conclave, seguido da abdicação de Celestino, elegeu Papa o próprio Caetani, com o nome de Bonifácio VIII. Este, voltando atrás com a promessa feita, talvez pelo temor que em volta do ex pontífice pudesse se formar um movimento cismático, aprisionou-o até a morte, ocorrida em 1296.

La vicenda merita di essere raccontata più estesamente. Il futuro Papa era nato fra il 1209 ed il 1215 ad Isernia, nel Molise. Condusse una vita di povertà, eremitaggio e dedizione ai poveri, che lo rese molto popolare e stimato dai contemporanei. Alla morte di Niccolò IV, nel 1292, la sede papale rimase vacante per due anni, per la incapacità dei cardinali di raggiungere un accordo, essendo fortissimi i contrasti fra le opposte fazioni di potere. Il poverissimo eremita fu, inaspettatamente, eletto Papa nel 1294, dopo aver egli stesso scritto dal suo eremo una lettera ai cardinali, riuniti in conclave a Perugia, con profezie di prossime sciagure per la Chiesa se non si fosse nominato al più presto un nuovo Pontefice. Considerato come personaggio estraneo ad ogni gioco di potere, facilmente manovrabile e talmente anziano da non poter occupare troppo a lungo il prestigioso incarico, Pietro da Morrone si vide inaspettatamente annunciare, nel suo eremo, la nomina papale e, pur fortemente riluttante, finì con l’accettare. Il potente cardinale Benedetto Caetani divenne suo consigliere e probabilmente lo indusse a dimettersi, con la promessa di lasciarlo ritornare al suo amatissimo eremitaggio. Un velocissimo conclave, seguito all’abdicazione di Celestino, elesse Papa lo stesso Caetani, che assunse il nome di Bonifacio VIII. Questi, contravvenendo alla promessa fatta e forse per timore che intorno all’ex pontefice potesse crearsi un movimento scismatico, lo fece catturare e lo tenne prigioniero fino alla morte, avvenuta nel 1296, in un suo feudo.

É provável que Dante tenha vivido a eleição de Bonifácio VIII como funesta para seu próprio destino, pelo de Florença, da Igreja e da Itália toda, pelo menos conforme a visão política do Poeta, como consequência da 'recusa maior' de Celestino. Daqui a acusação de falta de coragem. Talvez o próprio Dante tinha esperado que Celestino pudesse operar uma reforma moral da Igreja, recuperando sua função original de guia espiritual da humanidade, libertando-a da tentação de se intrometer na vida política e da obsessão pelos bens materiais.

Probabilmente Dante visse l’elezione di Bonifacio VIII, così nefasta per il proprio destino, per quello di Firenze, della Chiesa e dell’Italia intera, almeno secondo la visione politica del Poeta, come conseguenza del ‘gran rifiuto’ di Celestino. Da qui, probabilmente, l’accusa di ‘viltà’ nei suoi confronti. Ma forse lo stesso Dante aveva sperato che Celestino potesse operare una radicale riforma morale della Chiesa, riportandola alla originale funzione di guida spirituale dell’umanità e liberandola dalle tentazioni di intromissione nelle faccende politiche e dalla dilagante cupidigia di beni materiali.

Francesco Petrarca, por outro lado, reconheceu a incapacidade de Celestino de sustentar um papel tão pesado, seja por inexperiência nos negócios mundanos, seja por sua natureza contemplativa, e julgou o gesto como útil a ele e à humanidade.

Francesco Petrarca, invece, riconobbe la intrinseca incapacità di Celestino di sostenere un così oneroso compito, sia per inesperienza negli affari del mondo che per la sua natura eminentemente contemplativa, e giudicò il gesto utile a lui ed alla umanità.

Celestino V foi declarado santo em 1313 pelo Papa Clemente V. Encontra-se sepultado em Aquila, na basílica de S. Maria di Collemaggio, que ele mesmo tinha mandado construir. O terremoto de 2009, que destruiu a cidade, danificou a magnifica igreja, mas deixou intacta a urna com seus ossos.

Celestino fu dichiarato santo nel 1313 da Papa Clemente V. Si trova sepolto all’Aquila, nella basilica di S. Maria di Collemaggio, che egli stesso aveva fatto erigere. Il terremoto del 2009, che ha distrutto L’Aquila, ha pure gravemente danneggiato la splendida chiesa, ma ha lasciato intatta l’urna con le sue ossa.


Esboço e nanquim dos negligentes

O nobre castelo



Venimmo al piè d'un nobile castello,

sette volte cerchiato d'alte mura,
difeso intorno d'un bel fiumicello.Inf IV, 106-108
E ao pé chegamos de um nobre castelo,
sete vezes cercado de altos muros,
e tendo em volta um rio calmo e belo.
trad. Jorge Wanderley

O quarto canto do Inferno descreve o Limbo, no qual se encontram os espíritos que na vida foram virtuosos mas que não foram batizados ou, tendo nascido antes do advento do cristianismo, não adoraram Deus de forma correta. Sua pena é apenas moral e não sensorial: não podem chegar a ver Deus: "que sem esperança vivemos no desejo".
Il quarto canto dell'Inferno descrive il Limbo, in cui si trovano gli spiriti che in vita furono portatori di nobili virtú ma che non furono battezzati, oppure, nati prima del cristianesimo, non adorarono Dio nel modo corretto. La loro pena é unicamente morale e non sensoriale: l'impossibilitá di vedere Dio: "che senza speme vivemmo in desio". Inf IV, 42

Alguns destes espíritos residem num lugar particular: o nobre castelo, único lugar em todo o Inferno a ser circundado por um hemisfério de luz. Segundo muitos autores, os sete muros em volta dele são sete as virtudes: prudência, justiça, fortaleza e temperança (morais); e inteligência, ciência e sabedoria (intelectuais)... Mas o riacho belo?...
Ad alcuni di questi spiriti é riservato un luogo particolare: il nobile castello, unico luogo, in tutto l'inferno, circondato da un emisfero di luce. Per molti le sette mura che lo circondano sono le sette virtù, morali: prudenza, giustizia, fortezza e temperanza, ed intellettuali: intelligenza, scienza e sapienza... Ma il bel fiumicello?...

Por que chamá-lo de belo, e depois com um gracioso e humilde diminutivo?
Eu penso que represente a humildade, que defende o castelo dos soberbos, que não se abaixam a tirar os sapatos e molhar os pés para atravessar a água. São Francisco difiniu-a como "humilde e preciosa e casta"; corre sempre rumo abaixo, enquanto os soberbos querem subir ao alto, conduzidos pela turbina da arrogância.
Perchè lo chiama bello, e poi con un grazioso ed umile diminutivo? Io penso che rappresenti l'umiltà, la quale difende il castello dai superbi, che non si abbassano a togliersi le scarpe ed a bagnarsi i piedi per attraversare l'acqua. S. Franceco stesso l'ha definita "umile et preziosa e casta"; questa scorre sempre vero il basso, mentre i superbi vogliono salire in alto, portati dal turbine dell'arroganza.
Muitos dos versos deste canto tornaram-se proverbiais. Quantas vezes, eu mesmo, durante uma excursão à montanha, disse: "andemos que a estrada longa nos impele"... Ao contrário, “e eu fui sexto entre tanta sagacidade”, frequentemente vem usado com falsa humildade por quem ambiciona entrar em um restrito grupo de personagens importantes...
Molti dei versi di questo canto son divenuti proverbiali. 
Quante volte, io stesso, durante una gita in montagna ho detto: andiam che la via lunga ne sospinge...
 Invece, "ed io fui sesto fra cotanto senno", spesso viene usato con falsa umiltà da chi ambisce ad entrare in una ristretta cerchia di persone importanti...

Venha Medusa!



"Venga Medusa: sì ‘l farem di smalto"
(Que venha medusa, e o transformaremos em pedra)
Inferno IX -52

Nem mesmo depois que Perseu cortou-lhe a cabeça de um só golpe, nem mesmo então a górgona Medusa, dos cabelos guizados como serpentes, cessou de exercitar seu poder sobre nós, míseros e mesquinhos seres humanos.
Nemmeno dopo che Perseo le spiccò netta la testa d’un solo colpo, nemmeno allora la Gorgone Medusa, dai capelli guzzanti come serpi, cessò d’esercitare il suo potere su noi, miseri e meschini esseri umani.

Só de olhá-la se virava pedra, para sempre; assim como a esposa de Lot, que se voltou para ver Sodoma (por curiosidade?, atração polar dos contrários?, ou o que mais?), e foi transmutada em estátua de sal...
Solo a gurdarla si restava di pietra, per sempre; così come la moglie di Lot, giratasi a guardare Sodoma, (per curiosità?, attrazione polare dei contrari?, o che altro?), fu tramutata in statua di sale…

Virgílio, sempre um tanto paterno (e materno) para com Dante, lhe cobre os olhos, até que isto não ocorra; ao contrário, à chegada do anjo, que com irrisória facilidade abrirá as portas da cidade infernal, ou seja do íntimo pior do inferno, Virgílio, eu dizia, o convida a olhar com máxima concentração. E Dante termina: “Ó vós que haveis os intelectos sãos, olhais a doutrina que se esconde sob o véu dos versos estranhos...”
Virgilio, sempre così paterno (e materno) verso Dante, gli copre gli occhi, affinché ciò non accada; al contrario, al sopraggiungere dell’angelo, che con irrisoria facilità aprirà le porte della città infernale, ossia dell’intimo peggiore dell’inferno, Virgilio, dicevo, lo invita a guardare con la massima concentrazione. E Dante termina: “O voi ch’avete gli intelletti sani, mirate la dottrina che s’asconde sotto il velame delli versi strani…”.

É bem verdade que a doutrina que se esconde sob o véu é “também” aquela da Igreja Católica, doutrina que ensina os remorsos, os sensos de culpa, se diria hoje, guizantes no nosso mundo interior, nos empedram, e portanto é melhor não se olhar demais para dentro... 'Pecca fortiter, sed crede fortius' (peca com força, ma crê com maior força ainda), como dizia Martin Lutero, que jogou a veste para contestar a venda simoniaca das indulgências.
Ben è vero che la dottrina che si nasconde sotto il velame è “anche” quella della Chiesa Cattolica, dottrina che insegna che i rimorsi, i sensi di colpa, si direbbe oggi, guizzanti nel nostro mondo interiore, ci impietriscono, e quindi è meglio non guardarsi troppo dentro … 'Pecca fortiter, sed crede fortius' (pecca fortemente, ma credi ancora più fortemente), come diceva quel frate, che gittò la tonaca, per contestare le vendita simoniache delle indulgenze.

E é também verdade que tal doutrina, aqui obscurecida por todo a cena, segundo a assim conhecida 'Allegoria Theologorum', no tempo de Dante era a única aceita como verdade única, eterna, indiscutível e indestrutível!
Ed è altrettanto vero che tale dottrina, qui adombrata da tutta la scena, secondo la cosiddetta ‘Allegoria Theologorum’, al tempo di Dante era l’unica accettata come verità unica, eterna, indiscutibile ed indistruttibile!

Mas Dante convida a compreender o ensinamento velado, não próprio àqueles que crêem de have-lo, um intelecto 'são', só porque baseado nas teorias 'dominantes', ou seja, nas opiniões dos teóricos do conhecimento, da vida, do todo, do qual o mundo, ainda hoje, é pleno. O convite é para aqueles que têm verdadeiramente curado o próprio intelecto (e todo o resto), de tudo isto...
Ma Dante invita a comprendere l’insegnamento velato, non proprio a coloro che credono d’avercelo, un ‘intelletto’ sano, solo perché basato sulle teorie ‘dominanti’, cioè sulle opinioni dei teorici della conoscenza, della vita, del tutto, di cui il mondo, ancor oggi, è pieno. L’invito è per coloro che hanno veramente risanato il proprio intelletto (e tutto il resto), da tutto ciò …

Medusa somos nós, e só nós (e quem mais além de nós, senão nós mesmos?)... Medusa é o espelho dos nossos bloqueios interiores, que terminam por transformar a causa da nossa incapacidade de vivermos, de viver, de criar, de amar, e de tudo mais, inevitavelmente, acabamos por culpar qualquer outro.
Medusa siamo noi, e solo noi, (e chi altro oltre noi, se non noi stessi?) … Medusa è lo specchio dei nostri blocchi interiori, che finiscono per diventare la causa della nostra incapacità di viverci, di vivere, di creare, d’amare, e di tutto ciò, inevitabilmente, finiamo per far colpa a qualcun altro.

Medusa é a renúncia ao livre arbítrio, assim que nos damos conta do amargo, doloroso significado; e queremos defraudar, iludir, escapar, não se sabe bem para onde, nem como (e nem menos por quê). Vã esperança, porque nos seguirá onde quer que seja, até à lua, a outros planetas, sóis ou galáxias.
Medusa è la rinuncia al libero arbitrio, appena ne abbiamo capito l’amaro, doloroso significato; e vorremo sfuggirgli, eluderlo, scappare, non si sa bene dove, né come (e nemmeno perche'). Vana speranza, perché ci seguirà ovunque, anche sulla luna, su altri pianeti, soli o galassie.

Este espelho, por nós mesmos construído, só nós, e não um Perseu qualquer, podemos definitivamente deixa-lo em cacos, com a mesma facilidade de como o Anjo consegue abrir a porta da cidade de Dite, com aquela sua vara.
Questo specchio, da noi stessi costruito, solo noi, e non un Perseo qualunque, possiamo definitivamente mandarlo in frantumi, altrettanto semplicemente di come l’Angelo riusci' a spalancare la porta della città di Dite, con quella sua verghetta.

De fato, além daquele espelho de ilusões, aquela barreira de falsas garantias, de precárias certezas, de inúteis paradigmas da mente e do coração, além de tudo o mais, e só então, começa o caminho de procura da verdade.
Infatti, oltre quello specchio di illusioni, quella barriera di false rassicurazioni, di precarie certezze, di inutili paradigmi della mente e del cuore, oltre tutto ciò, e solo allora, comincia il cammino di ricerca della verità.



Estudos e lápis para Dite, a cidade Infernal

Minós, incorruptível juiz infernal

Minosse, incorruttibile giudice infernale

Tendo passado de algum jeito o Aqueronte, em cuja margem Dannte tinha desmaiado após um repentino terremoto, e tendo ultrapassado o primeiro círculo - que hospeda os espíritos nobres e os antigos poetas mortos sem batismo, novas dificuldades e novos seres monstruosos impedem a viagem de salvação apenas começada.
Oltrepassato in qualche modo l’Acheronte, sulla cui sponda Dante era rimasto privo di sensi per un terremoto improvvisamente scatenatosi, e attraversato il primo cerchio, che accoglie gli spiriti nobili ed i poeti antichi morti senza battesimo, nuove difficoltà e nuovi esseri mostruosi ostacolano il viaggio salvifico da poco iniziato.

Na entrada do segundo círculo, uma horrível figura procura obstruir a passagem dos dois viandantes.
All’ingresso del secondo cerchio, infatti, una figura orribile e ringhiante cerca di ostacolare il passaggio ulteriore dei due viandanti. “Stavvi Minòs orribilmente e ringhia: essamina le colpe ne l’intrata; giudica e manda secondo ch’avvinghia”. (Inf., V, 4-6)

Minós, rangendo os dentes lá avalia
todas as culpas que chegam à entrada
e pelos nós da cauda, sentencia.
(Jorge Wanderley)

O próprio som utilizado por Dante neste três versos, com uma sequência de consoantes ásperas, estridentes e sibilantes expressa bem a sensação de horror e bestialidade brutal que emana da personagem. Experto conhecedor do mal, recebe as almas condenadas, escuta sua plena confissão e escolhe a sede infernal apropriada para onde precipitá-los para a punição eterna.
Il suono stesso delle parole usate da Dante in questi tre versi, con un susseguirsi di consonanti aspre, stridenti e sibilanti, ben esprime il senso di orrore e di brutale bestialità che emana dal personaggio. Egli, esperto conoscitore del male, accoglie le anime dannate, ne riceve la piena confessione e decide quale sia la sede infernale più idonea ove farli precipitare per la punizione eterna.

Para tanto não precisa nem de palavras: é suficiente enroscar sua longa cauda tantas vezes quantos são os círculos que as almas devem descer...
Per fare questo, non deve nemmeno usare le parole: basta il gesto di attorcigliare la lunga coda tante volte quanti sono i cerchi da discendere …

Porém, nem Virgílio nem Dante podem se enquadrar em sua jurisdição, sendo o primeiro já hospede do limbo, no primeiro círculo, e ainda vivo o segundo. Porém Minos não desiste de empregar toda sua diabólica astúcia para que Dante desista da viagem: tenta fazer com que ele duvide de si mesmo e de quem o guia.
Però né Virgilio né Dante possono cadere sotto la sua giurisdizione, essendo il primo già ospite del limbo, nel primo cerchio, ed il secondo ancora vivo. Tuttavia Minosse non rinuncia ad usare tutta la sua diabolica astuzia, nel tentativo di far desistere Dante dalla prosecuzione del viaggio: prova a farlo dubitare di se stesso e di colui che lo guida. “Guarda com’entri e di cui tu ti fide; non t’inganni l’ampiezza dell’entrare!” (Inf., V, 19-20)

“Olha como entras e em quem stás fiando:

Não te engane do entrar tanta largueza!”
(José Xavier Pinheiro)

Virgílio intervém rapidamente e de maneira incisiva: estás gritando porque? A viagem dele depende da vontade divina! E emprega a formula já utilizada com Caronte:
Virgilio interviene con rapida incisività: cosa gridi a fare? Il suo viaggio dipende dal volere divino! Ed usa la formula già collaudata con Caronte. “Non impedir lo suo fatale andare: vuolsi così colà dove si puote ciò che si vuole, e più non dimandare”. (Inf., V, 22-24)

Vedar não tentes a fatal empresa:

Assim se quer lá onde o que se ordena

Se cumpre. Assaz te seja esta certeza!”

(José Xavier Pinheiro)

Assim como tinha aparecido iprovisamente, Minós desaparece atrás dos dois, que entram no círculo dos luxuriosos. Aqui a linguagem de Dante alcança um dos maiores níveis líricos de toda a obra. Mas Minós, enquanto isso e por toda a eternidade, continua a ranger os dentes e se enroscar com a diabólica cauda.
Minosse, così come era improvvisamente apparso, scompare alle spalle dei due, che entrano nel cerchio dei lussuriosi. Qui il linguaggio di Dante raggiunge uno dei più alti livelli lirici dell’intera opera. Ma Minosse, nel frattempo e per tutta l’eternità, continua a digrignare denti e ad avvinghiarsi con la diabolica coda.

Cérbero




Cérbero, o cachorro com três cabeças, emblemático guardião e algoz dos gulosos
Cerbero, il cane con tre teste, emblematico custode ed aguzzino dei golosi.

O terceiro círculo infernal é completamente ocupado pelos gulosos, deitados no chão e atormentados por uma chuva 'eterna, maldita, fria e grave', na qual misturam-se granizo, agua suja e neve, que formam de baixo dos corpo uma lama fedorenta. O único alívio aparente, para estes condenados, é o de se virar de um lado para outro, na ilusão de poder aliviar desta forma seu sofrimento.
Il terzo cerchio infernale è completamente occupato dai golosi, stesi per terra e tormentati da una pioggia “etterna, maledetta, fredda e greve”, in cui si mescolano grandine, acqua imbrattata e neve, che formano sotto i loro corpi una fanghiglia puzzolente. Unico apparente sollievo, per questi dannati, è quello di potersi girare ora su di un fianco, ora sul’altro, nell’illusione di attenuare in tal modo la loro sofferenza.

Como se não fosse suficiente, seu tormento é ainda mais insustentável pelo latido continuo de Cérbero, que ao mesmo tempo os arranha profundamente, até esquarteja-los, com suas 'mãos unhadas'. Por sua vez, os próprios gulosos latem como cães de baixo da forte chuva...
Come se ciò non bastasse, il loro tormento è reso ancor più insostenibile dal latrare continuo che riversa su di loro Cerbero, che al tempo stesso li graffia profondamente, fino a squartarli, con le sue ‘unghiate mani’. A loro volta, i golosi stessi urlano come cani sotto la pioggia sferzante…


A descrição de Cérbero é quanto mais eficaz e colorida, na poderosa síntese dantesca. Três gargantas que latem, os olhos avermelhados, a barba engordurada e escura, o ventre amplo de fera eternamente insaciável, as patas com unhas afiadas...
La descrizione di Cerbero è quanto mai efficace e colorita, nella possente sintesi dantesca. Tre gole latranti, gli occhi vermigli, la barba unta e nerissima, il ventre ampio, da bestia eternamente insaziabile, le mani con unghie affilate...

Quando percebe os dois recém-chegados Cérbero, enorme 'verme' infernal, abre as bocas e mostra as presas ameaçadoras, tremendo no corpo todo pela raiva. Na frente de uma visão terrificante como esta, qualquer um que não ficasse petrificado pelo medo desistiria de proceder adiante e sairia correndo.
Quando scorge i due nuovi arrivati Cerbero, enorme ‘verme’ infernale, spalanca le fauci e mostra minacciosamente le zanne, fremendo con tutto il corpo in una rabbia minacciosa. Di fronte ad una visione terrificante di questo tipo, chiunque non fosse paralizzato dal terrore, avrebbe desistito dal procedere oltre e se la sarebbe data a gambe.

Quem sabe quantas vezes Dante, principalmente em sua vida de exilado, passando por terrenos e casebres, deverá ter enfrentado situações parecidas, arriscando acabar mal. E quase com certeza, naquela época, não havia barreiras defensivas, nem os 'corteses' anúncios de 'cuidado cão bravo' (cave canem), tão difundidos na época da antiga Roma.
Chissà quante volte Dante, specialmente nella sua vita di esule, passando di terra in terra e da un casolare all’altro, avrà dovuto affrontare situazioni simili, rischiando di fare una brutta fine. E quasi sicuramente, a quell’epoca, non vi erano barriere difensive, né i ‘gentili’ avvertimenti di ‘attenti al cane’ (cave canem), così diffusi in epoca romana!

Nesta situação assustadora e ameaçadora, a formula ritual, já empregada por Virgílio com Caronte e Mínos, não teria tido, talvez, grande efeito: tamanha a brutalidade animal de seu oponente. Mas, nesta altura, com uma rápida decisão, Virgílio emprega uma nova estratégia que se revela muito eficaz: ajoelha-se, recolhe com as mãos um abundante punhado de lama pútrida e joga-a com decisão dentro das 'bramosa garganta' de Cérbero.
In questa situazione così spaventosa e di immediata minaccia, la formula rituale, già usata da Virgilio con Caronte e Minosse, non avrebbe avuto, forse, grande effetto: troppa era la brutalità animalesca del loro avversario. Ma a questo punto, con rapidissima decisione, Virgilio mette in atto una nuova, efficacissima strategia: si china, raccoglie con le due mani una grossa manciata di putrido fango e la scaglia con decisione dentro le ‘bramose canne’ di Cerbero.

E Cérbero, que deseja apenas encher de qualquer maneira seu estômago insaciável, acalma-se imediatamente e, esquecendo os dois, dedica-se completamente a devorar o imundo banquete. Assim, mais uma vez, os dois peregrinos podem continuar sua viagem.
E Cerbero, che solo brama di riempire in qualunque modo il suo stomaco insaziabile, immediatamente si quieta e, dimenticando i due, si dedica tutto a divorare l’immondo pasto. Così, ancora una volta, i due pellegrini possono continuare il loro viaggio.

Mesmo se a figura de Cérbero é tirada da mitologia clássica e da descrição feita por Virgílio na Eneida, Dante, como sempre, caracteriza de forma nova e extremamente sugestiva este monstruoso personagem também, tornando-o uma inesquecível figura, perfeitamente adaptada à finalidade simbólica e moral que a situação demanda.
Anche se la figura di Cerbero è tratta dalla mitologia classica e dalla descrizione che Virgilio ne fa nell’Eneide, Dante, come sempre accade, caratterizza in modo nuovo ed estremamente suggestivo anche questo mostruoso personaggio, facendone una indimenticabile ed efficacissima figura, perfettamente adatta allo scopo simbolico e morale che la situazione del momento richiedeva.